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Voltar Viagens de Colecta

Moçambique, onde chovem Nothobranchius

 

Africa! Para os rapazes da minha geração, que cresceram sob o imaginário de Tarzan, esta palavra significa mistério, fascínio e atracção. Uma ligação de longa data com killies nativos desse continente reforçava o desejo de aventura e nem todos os meus dedos chegam para contar os anos em que, secretamente ou nem por isso, acalentei a esperança de percorrer os locais de origem dos peixes mantidos nos meus aquários. Objectivo: Africa Ocidental. Camarões e Gabão, Congo ou Guiné, todos os meus sonhos estavam sintonizados no meu género de eleição, os Aphyosemion. Estudei-lhes os biótopos e localizações, mapas e imagens. Estava preparado, só faltava tempo, dinheiro e companhia, coisa pouca. Mas o destino é irónico…

Início de 2006 e no meu trabalho fala-se da construção de uma ponte sobre o Rio Limpopo, entre as localidades de Chokwé e Guijá, República de Moçambique. Em menos de nada ví-me com um bilhete Lisboa/Maputo/Lisboa nas mãos. Claro que apressadamente procurei saber que espécies de killies ocorreriam por essas terras, muito distantes das que estudei. Nothobranchius, foi a resposta dos entendidos, algo que eu já sabia. Charcos em vez de riachos, savana no lugar de floresta, que chatice, nada do que eu tinha preparado era útil. Parti de Lisboa a 21 de Março com pouca roupa numa mala, um computador e uma rede mosquiteira de tapar janelas.

 

Não sei bem do que estava à espera mas o primeiro contacto com Africa não foi surpreendente. Os anos e os telejornais já me tinham retirado a visão romântica do continente, mais própria da juventude. Estava de certo modo preparado para a pobreza e as dificuldades de um dos países mais carenciados do mundo se é que alguma vez se pode estar preparado para uma coisa dessas. Maputo é uma ruína da Lourenço Marques colonial, cercada de quilómetros e quilómetros quadrados de cabanas miseráveis e onde a segurança é um sério problema. O trabalho obrigou-me a ficar por lá durante 6 dias mas a prudência e a falta de meio de transporte próprio obrigaram-me a não me aventurar por charcos e poças. Houve tempo para deslocações aos serviços cartográficos e geológicos moçambicanos de modo a adquirir elementos que mais tarde se vieram a revelar preciosos: cartas topográficas e geológicas às escalas 1:250 000 e 1: 50 000.

Dia 27 de Março e a partida para Chokwé, destino de trabalho mas também a base ideal para explorar uma boa parte do Distrito de Gaza, zona já antes visitada com sucesso por Trevor Wood em 1999, Stefano Valdesalici em 2001 e 2004, Holger Hengstler em 2005 e outros. Ficou posta de parte a possibilidade de descobertas de abismar o mundo killiófilo, nada de fantásticas novas espécies em locais inexplorados, mas pelo menos tinha fortes probabilidades de encontrar alguma coisa. A falta de preparação inicial teve de ser compensada com pesquisas via Internet e consultas por telefone e e-mail. O primeiro - e ingénuo - passo foi imprimir uma folha com diversas fotografias de Nothobranchius ocorrentes na zona e tentar que a população local indicasse os sítios onde procurar. A resposta foi unânime: Massingir. Convém esclarecer que em Massingir existe uma barragem de consideráveis dimensões no Rio dos Elefantes e uma albufeira a condizer. Eu bem esclarecia que os peixes do meu interesse existiam em pequenos charcos e não em albufeiras, que eram peixes pequeninos e que não os queria apanhar com anzóis, mas mantinha-se teimosamente a recomendação: Massingir era o local a explorar. Desconfiado mas sabendo que na estrada para essa localidade tinham sido capturados N. rachovii em 1999, decidi-me a iniciar por aí as explorações.

 

O primeiro dia de folga foi um Domingo, 2 de Abril. Um dos colaboradores locais contratados para a obra – Luís Samuel Francisco – mostrou interesse no assunto e foiconvidado a participar no “passeio” rumo a Massingir. A rede mosquiteira transportada desde Lisboa foi transformada em rede de pesca com o auxílio de arame de aço e um pau. A boa vontade dos meus parceiros de viagem (quatro) foi evidente e mostraram considerável paciência para acederem a todos os meus pedidos de paragem onde quer que existisse uma gota de água. Nada! Nada não é bem, porque alguns outros peixes apareciam na rede, Nothobranchius é que nem vê-los. Foi no entanto visível que nos últimos 40-50 km de estrada antes de Massingir não ocorriam habitats prováveis de Nothobranchius, uma zona de savana demasiado seca, e na zona da barragem, como suspeitava, os peixes ocorrentes eram pescados à linha para alimentação humana. Desta viagem ficou o baptismo da rede, a minha primeira experiência de colecta em Africa e a nítida sensação de não ter feito tudo ao meu alcance para atingir o objectivo traçado. Ficou também a ideia de que a população só conhece a fauna que serve para alimentação e nesta zona - ao contrário de outras em Moçambique como Beira e Quelimane - os Nothobranchius não são parte da dieta. O primeiro contacto com o campo suscitou novas questões a colocar à minha equipa de “consultores” remotos: Paulo Alves, Filipe Torre e Stefano Valdesalici sempre prontos para esclarecer dúvidas via e-mail.

Seguiram-se dias de trabalho aqui e ali aproveitados para mergulhar a rede em zonas alagadas junto a Chokwé, antiga vila Trigo de Morais. Barbus sp., ciclídeos, girinos e insectos diversos, nenhuma indicação de me encontrar na terra dos “Nothos”. Observações posteriores vieram confirmar a ausência de killies nos quilómetros circundantes da vila, que no entanto deverá merecer uma atenção mais cuidada no futuro.

Dia 7 de Abril é feriado dedicado às mulheres moçambicanas e é devidamente aproveitado para as homenagear das mais variadas formas. Fica comprovado que qualquer desculpa é boa para ir à pesca de killies. O percurso escolhido compreendia uma viagem de ida e volta à povoação de Mabalane, primeira localidade assinalada no mapa na estrada entre a barragem de Macarretane e Chicualacuala, junto à fronteira com o Zimbabwe. Novamente o Luís como guia e intérprete de Changane (dialecto local muito semelhante a Zulu) e a companhia do Cristino Correia, colega de trabalho cabo-verdiano ansioso por conhecer outras paragens africanas. De novo a rede, um balde e diversas garrafas de 1,5 litros vazias. Após a barragem termina o asfalto e começa a aventura. Uma primeira incursão por uns charcos promissores veio a revelar-se infrutífera mas bastaram 8 km após Chinhacanine para se ver à beira do caminho uma diminuta poça de água castanha e barrenta. A curiosidade, mais do que a esperança, fez parar o carro. Algo se debatia dentro daqueles poucos centímetros de água, estava na altura de molhar a rede de novo. Às 9h e 15m do dia 7 de Abril de 2006 ia realizar-se um sonho. Localidade MZG 06-1, “Chinhacanine” Mesmo para quem há muitos anos tem contacto com killies, apesar de pouco com Nothobranchius, este local mais do que qualquer outro descoberto mais tarde não pode deixar de surpreender. A água era turva, com um aspecto acastanhado leitoso, e bastante quente a condizer com o dia de sol e calor. A falta de preparação a que já fiz referência não me permitiu recolher informações respeitantes aos parâmetros físico-químicos da água mas a temperatura não era certamente inferior a 30ºC. As dimensões da poça, a 7 de Abril, já eram muito reduzidas e a zona mais profunda não atingia sequer 30 cm. Mesmo assim, aparte algum movimento da superfície da água, não se vislumbrava a presença de qualquer peixe. No entanto a rede veio a revelar a presença de diversos exemplares de Nothobranchius furzeri, variedade vermelha. Precisava ser poeta para exprimir os sentimentos de alegria e emoção que tomaram conta de mim. Após um breve período de quase histería capturamos 15 peixes (4 machos e 11 fêmeas), todos adultos. Às péssimas condições de viagem e transporte apenas sobreviveu uma fêmea dessa localidade. De facto, foram mais de 8 horas dentro de pequenas garrafas e a temperaturas elevadas (o veículo utilizado nesse dia não dispunha de ar condicionado). Por esse motivo, e dada a relativa proximidade, por mais duas vezes me desloquei ao local com o objectivo de conseguir alguns exemplares vivos. A segunda foi a 11 de Abril, apenas 4 dias depois. As dimensões da poça eram então consideravelmente mais reduzidas, a altura da água de poucos centímetros, ao ponto de não ser possível a utilização da rede. Na lama húmida da periferia já eram visíveis alguns cadáveres de peixes, cumprida que estava a sua missão e o seu ciclo de vida, mas na água eram evidentes sinais de movimento. Na impossibilidade de utilizar a rede tiveram de ser as mãos a assumir o trabalho, os receios quanto à Bilharzia ultrapassados pela ânsia de colectar killies. Incrivelmente, naqueles poucos centímetros cúbicos de água foram capturados 15 peixes adultos e alguns outros ainda lá ficaram. Curioso o facto de entre os N. furzeri ter sido encontrado um único exemplar de N. orthonotus.

Chegados a este ponto é conveniente deixar bem claro que nunca, nem em circunstâncias extremas como esta onde era evidente os peixes terem completado o seu ciclo e assegurado a sua descendência, nunca, dizia, os biótopos foram totalmente “limpos” dos seus habitantes.

A terceira passagem pelo local foi a 19 de Abril. Nesse dia, apesar de alguma água da chuva caída nessa madrugada, era evidente que o local já se encontrava na fase seca do ciclo dos Nothobranchius. Os carros passavam agora pelo sítio onde uns dias antes nadavam peixes. Dentro de alguns meses um novo período de chuvas trará de volta a vida.

Mas voltemos de novo ao dia 7 de Abril, o tal das mulheres moçambicanas. Após a excitação da primeira descoberta era necessário continuar a viagem, agora já sintonizados com os biótopos de maior probabilidade de ocorrência de Nothobranchius. Foram necessários mais 12,5 km até surgir outro charco com aspecto interessante, de novo a adrenalina a correr. Localidade MZG 06-2, “Pelane” O caminho de terra batida, pomposamente designado por Estrada Nacional 208, corre paralelo a uma linha de caminho de ferro. Pelas 9h 50m chegámos a um local com uma passagem inferior à linha, normalmente utilizada por gado. A depressão causada pela construção bem como a área próxima em ambos os lados da linha encontrava-se alagada com água turva acastanhada. Estas passagens tanto em estradas como em caminhos-de-ferro são frequentemente referenciadas por colectores como locais típicos de ocorrência de Nothobranchius pelo que as perspectivas eram animadoras. De um charco original – maior no pico da estação chuvosa – restavam agora três poças independentes: uma com vegetação rasteira junto à estrada, outra maior sob a linha do caminho-de-ferro e outra ainda do lado oposto da linha. Neste dia a prospecção da primeira e segunda partes produziu 4 machos e 6 fêmeas adultos de N. furzeri vermelhos.

À semelhança da primeira localidade também estes peixes não resistiram à viagem até casa pelo que lá retornei, sozinho, no dia 19 de Abril, véspera do meu regresso a Maputo. Estando já seca a parte com vegetação junto à estrada, restava uma boa quantidade de água sob a linha (onde uma primeira tentativa não produziu qualquer peixe) e uma pequena charca do lado oposto. Aí foram colectadas diversas fêmeas e, após muita insistência, apenas dois machos. Mais uma vez só N. furzeri. Nova tentativa na zona mais funda apenas produziu outra fêmea, jovem, que foi deixada em paz.

O dia 7 de Abril ainda tinha muito para oferecer e Mabalane – localidade mais a Norte da viagem – ainda estava distante. Durante outros 21 km não se viu junto à estrada mais nenhuma zona alagada até que, quase 45km após a barragem, surge uma pequena lagoa. Localidade MZG 06-3, “29,4km S Mabalane” À primeira vista assemelhava-se a um dos locais de ocorrência de ciclídeos, geralmente sem Nothobranchius. Mais água, mais límpida, com bastante vegetação incluindo nenúfares. A expectativa era baixa e a paragem foi mais uma pausa para recuperar dos buracos do caminho do que uma tentativa séria para apanhar peixes. Mas o dia estava bom para surpresas e, ao colocar uma bota dentro de água, um jovem macho de N. furzeri saltou para a margem. E os entendidos dizem que os Nothobranchius não saltam … A breve pausa transformou-se em quase uma hora de recolha de Nothobranchius de duas espécies distintas: N. furzeri vermelhos e N. orthonotus. Em contraste com as duas localidades anteriores os peixes eram mais jovens e bastante magros.

Com mais 30 exemplares recolhidos seguimos viagem até Mabalane, pequena localidade que já terá visto melhores dias pelo menos a julgar pelas ruínas das poucas casas de alvenaria ainda existentes. Os buracos nas fachadas não deixavam esquecer uma não muito distante guerra civil, não sendo de admirar a ausência de expedições killiófilas a Moçambique entre a independência e 1999. Após um rápido “almoço” de cerveja e bolachas no único estabelecimento do local, encetámos a viagem de regresso enfrentando de novo os 74km de terra batida até à barragem de Macarretane. Mas 29km após o reinício da viagem, escassas centenas de metros antes da localidade 3, detectámos uma pequena poça com água, despercebida aquando da primeira passagem. Localidade MZG 06-4, “29,0km S Mabalane” Também muito pouca água, turva e castanha, protegida do sol por alguns arbustos e pequenas árvores. Os peixes encontrados, de novo apenas N. furzeri, eram surpreendentemente jovens. Apesar do rápido crescimento da espécie por certo nunca atingiriam o estado adulto pois a poça terá secado poucos dias mais tarde. Foram recolhidos 25 exemplares.

Como já antes adiantei, o dia terminou com a constatação de que muitos peixes não resistiram às más condições do transporte. A inexperiência custou caro mas a lição foi aprendida e não mais se verificaram mortes nessas condições.

Por essa altura estava a tornar-se evidente que o regresso a Portugal previsto para o dia 12 teria de ser adiado uma a duas semanas. Se por um lado isso significava mais dias para pesca também significava mais dias para manter vivos os peixes já capturados. Três questões se levantavam: qualidade da água, alimentação dos peixes e agressividade entre exemplares. A primeira foi facilmente resolvida pois a água da habitação provinha de um furo não tendo, portanto, a adição de nenhum produto nocivo aos peixes. O recurso a diversos baldes permitia trocas diárias de quase 100% da água não parecendo que isso afectasse negativamente os animais. A alimentação veio efectivamente a revelar-se um problema. É sabido que os Nothobranchius são peixes de metabolismo acelerado com necessidade constante de calorias e proteínas. Infelizmente o tempo não me permitia a colecta de comida viva e outro tipo de alimento não estava acessível. Isto foi provocando um gradual desgaste nos peixes e motivou algumas mortes antes da viagem para Portugal. A terceira questão não foi muito problemática apesar de se observarem algumas escaramuças entre machos, felizmente sem consequências para além de barbatanas rasgadas. As fêmeas eram constante-mente assediadas mas a coexistência de diversos exemplares minimizou os estragos.

O Sábado e Domingo – 8 e 9 de Abril – foram gastos com uma deslocação a Maputo para ir buscar uma viatura todo-o-terreno (com ar condicionado!) e aproveitados para comprar uma rede mais adequada. De regresso a Chokwé e ao trabalho, foi possível aproveitar algum tempo no dia 11 para revisitar a localidade 1 e no dia 13 para explorar a estrada entre a Barragem de Macarretane e Guijá (nalguns mapas ainda referenciado como Vila do Caniçado), localidade situada na margem esquerda do Limpopo, lado oposto a Chokwé. Curiosamente esta viagem não produziu qualquer resultado positivo apesar da existência de biótopos com aspecto promissor.

Assim, o dia seguinte inteiramente dedicado à pesca foi Sexta-Feira Santa, dia 14 de Abril. O objectivo para esse dia era Nalázi, uma localidade aproximadamente 90km para Nordeste da Barragem de Macarretane estando assinalada no mapa a existência de uma estrada não asfaltada. Melhor equipado (redes, garrafões, água limpa), uma viatura mais adequada às exigências do percurso e a mesma companhia do dia 7, ou seja, Cristino e Luís. Por esta altura já éramos “pescadores de killies” experimentados, eles já quase tão entusiasmados quanto eu. De novo não foi preciso esperar muito tempo até surgir a primeira lagoa de aspecto interessante. Algumas mulheres lavavam roupa sem detergente naquela água barrenta e crianças brincavam nas proximidades utilizando excremento de vaca como plasticina. Nothobranchius é que nem vê-los. Ainda a recuperar da desilusão avançámos mais uns quilómetros para Nordeste. 12,1 Km após a Barragem parámos à beira de uma grande lagoa circundada por vegetação rasteira e arbustos. Eram 9h e 30m. Localidade MZG 06-5, “Lagoa de Beniningo I” Não apresentando nada de novo quanto ao tipo de água – turva e acastanhada – este local distinguia-se dos outros pelas maiores dimensões. Talvez por esse motivo demorámos muito tempo até capturarmos o primeiro peixe, uma fêmea de Nothobranchius, o que despertou entre nós um grande frenesim. O Luís, com uma das redes, cada vez mais à vontade para se aventurar nas zonas mais profundas; eu, com outra rede, prospectava as margens pois o receio da Bilharzia ainda me mantinha sob respeito; o Cristino era o fotógrafo de serviço, sempre afastado de qualquer zona onde pudessem existir cobras. O balanço final de quase uma hora de colecta foi extraordinário. Além da repetição da ocorrência simpátrica de N. furzeri e N. orthonotus, algo já verificado nas localidades 1 e 3, verificou-se nesta lagoa a coexistência dos fenótipos vermelho e amarelo de N. furzeri. Nada de original – situação já referenciada por outros colectores – mas ainda assim um acontecimento raro e interessante. Uma particularidade do fenótipo amarelo nesta localidade é a quase ausência da banda negra na barbatana caudal. Os peixes capturados nesta lagoa aparentavam estar muito bem alimentados e alguns machos eram verdadeiramente soberbos em tamanho e cor.

Após a captura de 36 exemplares, todos adultos, era altura de continuarmos a viagem. Nalázi ainda se encontrava a muitos quilómetros de distância mas só percorremos cerca de 500m até pararmos de novo. Localidade MZG 06-6, “Lagoa de Beniningo II” Ainda de “barriga cheia” com a fartura da localidade 5 deparámos com mais uma pequena lagoa no lado oposto do caminho, escassas centenas de metros à frente. Demorámos apenas o tempo suficiente para confirmarmos a existência de N. furzeri e apenas no fenótipo vermelho. Dois machos e quatro fêmeas adultos seguiram viagem connosco bem como um habitante local, Alberto Mabunde de seu nome. O sr. Alberto, homem já de alguma idade, corpulento e voz de trovão, falava pouco português e foi-nos apresentado como uma pessoa importante da zona de Nalázi, facto confirmado pelo próprio que se intitulou “Presidente” de toda aquela zona. Precisava de boleia para regressar a casa após consultar um médico e prometeu dar-nos uma ajuda no percurso até ao nosso destino. Foi assim incluído na comitiva após ter sido alertado para a possível demora na viagem devido a paragens para pesca, algo que não pareceu incomodá-lo minimamente.

Seguiram-se muitas dezenas de quilómetros num caminho difícil, por vezes inexistente, em que a ajuda do sr. Alberto foi preciosa. Aparentemente as cheias e a falta de manutenção terão feito desaparecer parte da estrada, valendo no nosso caso a robustez da carrinha 4 x 4 que nos transportava. Sucederam-se as paragens em cada lagoa, charco ou poça que aparecesse mas nada de Nothobranchius. Às 12h e 40m, a 50km da Barragem (2 horas e 40km após a localidade 6!), a sorte voltou a mudar. Localidade MZG 06-7, “25,8km SW Nalázi” Mais um pequeno charco junto ao caminho, castanho e barrento como tantos outros. Confesso que não era muita a esperança de lá encontrar algo interessante, afinal já tínhamos passado por tantos sem nada, mas o objectivo era não deixar nada por explorar. As primeiras tentativas sem resultados só reforçaram a minha descrença mas a persistência do Luís foi recompensada. Finalmente capturado o primeiro peixe, alguns outros se seguiram – seis casais no total. De novo N. furzeri fenótipo vermelho, bem adultos e magros.

Tudo isto se desenrolava sob o olhar curioso de Alberto Mabunde. Verifiquei que se mostrava surpreendido pela presença de peixes naquele local e perguntei-lhe se já tinha visto algo semelhante anteriormente – afinal estávamos a poucos quilómetros da casa onde provavelmente terá passado toda a sua vida. A resposta foi tão surpreendente quanto a pergunta feita logo de seguida. Que não, nunca tinha visto peixes naquele local e perguntou-me se estes teriam caído com a chuva! Tentei atabalhoadamente falar nas carecterísticas particulares destes peixes mas acabei por lhe deixar ficar na cabeça a bonita imagem da chuva de Nothobranchius.

Quase 26km depois chegámos a Nalázi onde encontrámos uma mercearia por entre casas em ruínas e algumas cubatas. Estávamos esfomeados! Grão e atum enlatados constituiram um manjar recebido com grande alegria. Aí nos despedimos do sr. Alberto Mabunde, companheiro de algumas horas na savana africana e inspirador do título desta história.

O regresso a casa foi penoso. Sem a ajuda do nosso amigo não encontrámos o caminho de volta junto a Mbala Vala e andámos perdidos algumas dezenas de quilómetros. As cartas topográficas de nada valiam sem pontos de referência, tendo-nos valido a orientação pelo sol e algumas informações obtidas pelo Luís junto a outros viajantes para regressarmos sãos e salvos já com a noite a cair. Para mim o dia ainda não tinha acabado pois era necessário cuidar dos peixes capturados entre os quais, desta vez, não se verificaram perdas. Precisava ainda de os fotografar com a preciosa colaboração de uma caixa de chocolates – único recipiente disponível com paredes transparentes e planas. Terminei um pouco exausto mas muito satisfeito. Fora um dia em cheio!

Por esta altura já se multiplicavam os baldes e garrafões no chão do quarto. Mesmo sem comida os peixes mantinham uma actividade intensa e eram inúmeros os ovos depositados nos fundos nus dos recipientes. Nota a fixar – noutras oportunidades semelhantes não esquecer algum substrato para postura (turfa ou húmus de terrário apropriado) de modo a aproveitar todo o instinto de propagação da espécie demonstrado pelos animais.

Sábado foi dia de trabalho pelo que só Domingo, dia de Páscoa, houve oportunidade para nova sortida. As celebrações pascais reduziram a nossa equipa pois o Cristino optou por ficar em Chokwé. O objectivo para o dia não era muito ambicioso e passava por percorrer de novo parte da estrada para Massingir até onde tinha referências de colectas anteriores, inflectir depois para Norte até ao Rio dos Elefantes e seguir pelo caminho paralelo a esse rio até à sua embocadura com o Limpopo. De novo na E.N. 256 voltámos a pesquisar pequenas lagoas por onde já tínhamos passado no dia 2 e com os mesmos resultados negativos. Os alvos preferenciais do dia situavam-se mais ou menos depois do PK 33, a partir do qual estavam referenciados três locais de ocorrência de Nothobranchius por Trevor Wood et. al. em 1999. O primeiro desses locais já tinha pouca água e nenhum Nothobranchius. Estranho, sem dúvida. No segundo local, um pouco à frente, a história era diferente. Localidade MZG 06-8, “Soveia” Muito próximo da localidade de Soveia, uma típica aldeia moçambicana com as suas cubatas em madeira e lama, encontrámos uma lagoa de dimensão razoável mas que já se encontrava com pouca água. Recordei-me de para lá ter olhado no dia 2 quando ainda tinha muita água, e de não ter visto nada de interessante, e ocorreu-me o quanto eu tinha aprendido desde então. Numa parte deste biótopo existia vegetação – caniços com cerca de 1m de altura – e foi aí que descobrimos a maior parte dos peixes capturados. Pescámos pela primeira vez N. rachovii – um fenótipo quase negro – e N. furzeri. Estes exemplares de N. furzeri diferiam bastante dos capturados a Norte do Limpopo sendo muito mais parecidos com o fenótipo ocorrente na Terra Typica da espécie – Gona Re Zhou Game Reserve no Zimbabwe – ou seja, barbatana caudal com uma banda amarela e outra negra.

Não nos esforçámos para encontrar a terceira localidade referenciada na zona e, como previsto, ao P.K. 50 saímos da estrada asfaltada virando a Norte na direcção do Rio dos Elefantes. Foi sem dúvida um percurso muito interessante mas totalmente desprovido de charcos com água. Chegámos ao rio, virámos para jusante até ao Limpopo e continuámos mais alguns quilómetros paralelos a esse rio até inflectirmos de novo para a E.N. 256. Ao todo foram perto de 54km em terra batida sem vislumbrarmos um único possível biótopo de Nothobranchius. Apesar de tudo estava cumprido o objectivo traçado para o dia e regressámos à “base” para gozar o descanso no que restava do Domingo de Páscoa.

Dia 19, quarta-feira feira e véspera da partida de Chokwé, fiz as minhas despedidas da savana com a anteriormente mencionada revisita às localidades 1 e 2. Dia 20 foi tempo de acondicionar todos os peixes devidamente identificados em garrafões e partir para Maputo onde cheguei já noite cerrada. Dia 21, para além de algumas obrigações profissionais era altura de pensar no acondicionamento definitivo dos peixes até Portugal e mais uma vez se fez notar a falta de preparação inicial. Não tinha levado sacos para transporte dos peixes e a encomenda enviada pelo Filipe Torre andou perdida nos correios moçambicanos (soube mais tarde que chegou uma semana após a minha partida). Assim tinha várias dezenas de killies para transportar, poucas horas disponíveis, uma mala de viagem e nenhum saco para peixes. A solução passou pela compra de garrafas pequenas de água mineral (25 e 33 cl) e por deixar metade da roupa e botas em Moçambique empacotando o resto numa caixa de cartão. Experiências anteriores tinham-me demonstrado que 1 a 2 peixes por garrafa e 1/4 de água para 3/4 de ar são suficientes para manter os animais em boas condições por muitas horas. Às 5h da manhã de 22 de Abril, sábado, iniciei o acondicionamento final dos peixes tendo terminado com a minha única mala de viagem a abarrotar de pequenas garrafas com água e peixes, não cabia nem mais uma. Esta mala teria de ser transportada como bagagem de cabine - para não sujeitar os peixes às temperaturas muito baixas do porão durante as 12 horas previstas para a viagem – e chamou naturalmente a atenção da funcionária da alfândega. Nada que uma “conversa amigável” não resolvesse e lá seguimos caminho, eu e os peixes. O percurso para Lisboa não teve muita história apesar da escala em Joanesburgo me ter obrigado a passear killies por esse aeroporto durante uma hora. A chegada a Lisboa foi um alívio tal como aliviado fiquei quando passei pela alfândega sem ser interpelado por ninguém já que não me apetecia, aquela hora, passar por todo o processo burocrático de entrada de animais vivos em território português.

À minha espera estavam, ansiosos, Alberto Reis e Filipe Torre, os especialistas portugueses de Nothobranchius nas mãos de quem entreguei todos aqueles magníficos animais e em quem depositei a minha esperança e confiança para que estas populações sejam devidamente difundidas por todos os que as quiserem desfrutar e estudar. Para mim foi um inesperado privilégio realizar esta expedição. Como disse no início o destino - irónico, claro está -conduziu-me ao local onde completei o meu ciclo como killiófilo. Desde a manutenção e reprodução de peixes em aquário até à exploração de biótopos, captura de exemplares selvagens e introdução de novas populações no hobby. Naturalmente tenciono repetir tudo de novo seja ou não em Moçambique, a terra onde chovem Nothobranchius.

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