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Aphyosemion bualanum, Aphyosemion elberti, ou ...?

Artigo publicado no Boletim da Associação Portuguesa de Killifilia, Vol. VI, nº 4 Jul./Ago. 2004
 

Por: Vasco Gomes

Poucas espécies de killies são mais conhecidas. Poucas também são mais procuradas e desejadas. Poucas ainda são mais atraentes. Mas qual é a designação correcta desta espécie? Actualmente ela tem a particularidade de ser conhecida no mundo da killifilia por dois nomes: Aphyosemion bualanum e Aphyosemion elberti. Como se isso não bastasse, é ainda possível que um dia venha a ter outro nome. Ou mais do que um.

O objectivo deste artigo é fazer uma breve análise à problemática da denominação desta espécie. Não, naturalmente, numa perspectiva científica. Ao autor falta-lhe a formação académica e os conhecimentos básicos fundamentais para um trabalho desse tipo. Pretende-se apenas – e com base em trabalhos publicados por autores conceituados – dar a conhecer aos interessados nesta matéria alguns factos passados (conforme relatados na literatura) e algumas opiniões conhecidas. O facto de não ser possível consultar todas as fontes originais – tanto pela sua indisponibilidade como pela barreira linguística – pode introduzir algumas imprecisões ao texto. No entanto penso que estas pouca influência terão nas ideias fundamentais abaixo descritas.

Tudo começou em 1913. O Dr. S. Elbert capturou e conservou diversas espécies de peixes no território que, na época, constituía os Camarões – Colónia alemã. Parte desse território está actualmente integrado na Republica Centro Africana. Diversos desses exemplares foram estudados pelo ictiólogo alemão Ernst Ahl em Berlim. Apercebendo-se que alguns deles corresponderiam a espécies até aí desconhecidas, Ahl, em 1924, publicou uma série de descrições de novas espécies. Entre elas estavam Panchax bualanus Ahl 1924 e Panchax elberti Ahl 1924. O nome genérico Panchax era usado nesse tempo para os killies que actualmente estão integrados nos géneros Aphyosemion (Myers 1924) e Epiplatys (Gill 1862). Portanto, a designação correcta para estas espécies na actualidade será Aphyosemion bualanum (Ahl 1924) e Aphyosemion elberti (Ahl 1924) e é assim que me referirei a elas daqui para a frente.

Num pequeno aparte – que poderá ajudar a explicar um pouco a origem deste imbroglio – é de referir que Ernst Ahl adquiriu grande parte da sua reputação por ter descrito espécies "a quilo". Até há bem pouco tempo era o recordista neste aspecto, com 73 novas espécies de killies descritas no que já deverá ter sido ultrapassado pelo Dr. Wilson Costa. Infelizmente, a quantidade não terá sido acompanhada pela desejada qualidade e rigor sendo que muitas dessas espécies já teriam sido anteriormente descritas por outros autores e até mesmo pelo próprio Ahl. Actualmente a maioria é considerada inválida. Diversas imprecisões no seu trabalho foram posteriormente confirmadas por outros investigadores. Um dos primeiros a fazê-lo foi M. Holly que em 1930 publicou um trabalho onde apresenta diversas correcções aos dados apresentados por Ahl (sobretudo relacionados com os dados merísticos1 das espécies). Poderá mesmo afirmar-se que o contributo dado por E. Ahl no domínio da sistemática dos killies terá sido mais prejudicial do que benéfico. Outros factos conhecidos sobre a vida do Dr. Ernst Ahl também não são de molde a inspirar respeito e confiança na sua personalidade.

De volta ao tema central. Os holotipos2 de cada uma das espécies referidas foram confiados à guarda do Museu Zoológico de Berlim.

Aparentemente nenhum peixe dessas espécies foi colectado e introduzido no circuito aquariófilo até aos anos 60 do século passado. Aliás, até essa década eram muito raras as importações de killies oriundos de África que chegassem em condições de serem propagados pelos aquariófilos da altura. Ou seja, passaram-se várias dezenas de anos entre a descrição de A. bualanum e A. elberti e o aparecimento nos aquários de possíveis exemplares. Quando tal se tornou possível, e para fazer face à necessidade de classificar os peixes capturados, os colectores apenas tinham à sua disposição alguma literatura e os holotipos conservados, já que o descritor da espécie há muito que teria desaparecido não podendo, naturalmente, dar o seu contributo nessa tarefa. Que fazer, ainda, se se desconhecesse a existência dos espécimes tipo ou o local onde se encontrassem conservados ou este fosse inacessível? Restava apenas a literatura. A tarefa tornava-se desesperada se essa literatura tivesse como autor um cientista pouco fiável – E. Ahl.

Essa tarefa coube a um dos mais conceituados e respeitados especialistas em killies de todos os tempos – o dinamarquês Jorgen Jacob Scheel (1916-1989). Com efeito, em 1966 Scheel colectou uma espécie de killies com ampla distribuição nos Camarões e conseguiu levar exemplares vivos de duas populações (Bamkin e Ndop) de regresso a Copenhaga. Para os classificar, Scheel apenas tinha à sua disposição a literatura de Ahl e Holly, já que desconheceria – ou não teve oportunidade de consultar – os espécimes tipo preservados no Museu Zoológico de Berlim. Assim, com base nos elementos de que dispunha, Scheel identificou essas populações como Aphyosemion bualanum. Isto apesar de Ahl ter sugerido nos seus escritos que Aphyosemion bualanum era aparentado com Aphyosemion cameronense e Aphyosemion lujae e de Holly ter considerado A. bualanum um sinónimo de A. cameronense. Scheel (1968) considerou "esse ponto de vista inaceitável devido a razões zoogeográficas e ecológicas" - suponho que por a área de distribuição conhecida de A. cameronense se situar muito longe, a Sudoeste da Terra Typica3 de A. bualanum. Ou seja, Scheel baseou-se nas observações de Ahl e Holly mas ignorou as suas conclusões.

Como já se disse, Jorgen Scheel era uma personalidade conceituadíssima pelo que o seu julgamento não foi obviamente posto em causa. E durante muitos anos todos os exemplares capturados e introduzidos no hobby com características semelhantes às populações de Bamkin e Ndop ostentavam sempre A. bualanum como nome específico. Tudo pacífico, até meados dos anos 80.

Por essa altura, outro ictiólogo alemão - Dr. Lothar Seegers, autor dos volumes Aqualog dedicados a killies - teve oportunidade de investigar espécimes tipo de Cyprinodontiformes preservados no Museu Zoológico de Berlim. Em trabalhos publicados em 1986 e 1988, conclui que o holotipo de Aphyosemion bualanum não está relacionado com a espécie a que Scheel deu esse nome nem com qualquer outro membro do sub-género Kathetys. Será antes um exemplar do sub-género Mesoaphyosemion ao qual pertence a espécie A. cameronense. Surpreendentemente, as conclusões de Ahl talvez estivessem correctas. E assim o nome Aphyosemion bualanum teria sido incorrectamente atribuído por Scheel às populações que trouxe de Bamkin e Ndop. Como consequência, todos os peixes que desde essa altura assim foram designados terão sido incorrectamente identificados.

Que fazer?

A confirmar-se esta situação, as soluções possíveis resumem-se a duas: ou existe outro holotipo que corresponda às características dos peixes até então designados como A. bualanum – e esses peixes tomariam o nome específico desse holotipo – ou não existe esse holotipo e um novo nome tería de ser atribuído.

Tal como se refere no início deste artigo, pouco depois de Ahl ter publicado a descrição de A. bualanum publicou também a descrição de A. elberti. Aí o autor descreve um peixe com bastantes mais semelhanças com um membro do sub-género Kathetys – barbatanas anal e dorsal alongadas e pontiagudas para além dos padrões cromáticos. Também neste caso Holly introduziu correcções às contagens de Ahl e a sua própria descrição coloca A. elberti muito mais de acordo com os peixes conhecidos até meio dos anos 80 como A. bualanum. Para completar o quadro, as observações de Seegers ao holotipo de A. elberti apontam no mesmo sentido (Lazara 2001). Apesar de algumas reservas, Seegers propôs então que os A. bualanum sensu Scheel passassem a ser designados Aphyosemion elberti. Curiosamente, e à semelhança de Scheel, Seegers preferiu ignorar as conclusões de Ahl (que colocou A. elberti próximo de Aphyosemion striatum) e Holly (que considerou A. elberti um sinónimo de Aphyosemion escherichi).

Este ponto de vista foi bem acolhido por outros membros da comunidade killiófila – cientistas ou apenas aquariófilos. Entre estes figuram o Dr. Kenneth J. Lazara (autor do livro Killifish Master Index, actualmente na sua 4ª edição, obra de referência para a American Killifish Association) - apesar de ressalvar a necessidade de se investigar os peixes ocorrentes na localidade tipo dessa espécie (Lazara 2001) – e Rudolf H. Wildekamp (autor da monumental obra A World of Killies) que também teve oportunidade de examinar os mesmos holotipos que Seegers. Sem dúvida opiniões de peso.

Caso resolvido?!? Ainda não!

Durante bastante tempo Jean H. Huber (autor dos livros Killi-Data, actualmente na versão 2000, e obra de referência para diversas associações europeias entre as quais a Associação Portuguesa de Killifilia) manteve uma posição cautelosa relativamente a este assunto por considerar serem necessários estudos mais aprofundados. Tendo tido oportunidade de estudar o holotipo de Aphyosemion bualanum no final dos anos 90, observou que o mesmo se trata de um espécime juvenil em péssimo estado de conservação. Encontra-se comprimido lateralmente, o que o faz parecer mais alto que a realidade, a maior parte das barbatanas está cortada próximo da base, sem qualquer pigmentação e muitas escamas desaparecidas (Huber 1998). Nestas condições qualquer tentativa de identificação com base em características morfológicas externas e dados merísticos – como a que fez Seegers – apenas permite concluir que se trata de um peixe pertencente ao género Aphyosemion. Demasiado vago. Huber usou então outra técnica – raios x – que lhe permitiu (após comparação com dados fornecidos por outros exemplares de A. bualanum e A. exiguum pertença do M.N.H.N.) concluir que em aspectos morfológicos, merísticos e osteológicos o holotipo de A. bualanum de Ahl não pode ser distinguido dos A. bualanum de Scheel. Voltamos então ao status anterior às observações de Seegers. Apesar de toda a fundamentação científica das observações de Huber, este ponto do vista não foi universalmente aceite mantendo-se a oposição ao mesmo por parte de - pelo menos - Lazara (2001) e seus seguidores.

Huber deixa ainda uma pequena margem para dúvidas que só serão esclarecidas após novas recolhas na Terra Typica de A. bualanum e A. elberti. Mas mais uma dificuldade se levanta – esses locais situam-se na República Centro Africana (localidade de Bouala a 1200m de altitude na estrada entre Bouar e Bocaranga – 15.58E; 06.42N para A. bualanum e Jade Plateau, Rio Lebo – 15.20E; 06.45N para A. elberti), país politicamente instável e que representa um risco considerável para o colector de killies mais intrépido. Desde a viagem de Wolfgang Grell e Carl-Heinz Koller em 1990 mais ninguém a tal se aventurou. Nessa expedição Grell e Koller capturaram duas populações de A. bualanum sensu Scheel na Rep. Centro Africana, códigos GKCAR 90/1 e GKCAR 90/2, esta última a mais próxima da Terra Typica da espécie (50km a Oeste de Bouar - 15.20E; 05.58N). Essas futuras recolhas poderão confirmar alguma das teorias acima descritas ou nenhuma. E nesse caso – como já se disse - impõe-se a atribuição de um novo nome.

Constata-se então que não existe consenso sobre este assunto. Para o aquariófilo comum (geralmente sem formação específica em Biologia) torna-se imperativo escolher uma referência - um autor a quem reconheça idoneidade e competência - e seguir as suas indicações de modo a manter alguma coerência. No meu caso particular - e seguindo o exemplo da APK – guio-me pelas indicações fornecidas pelo Dr. Jean H. Huber e, consequentemente, pelo Killi-Data 2000. Assim, e a juntar à minha convicção de que a análise mais correcta a esta problemática foi feita por esse autor, continuarei a usar o nome Aphyosemion bualanum até que surjam dados inequívocos que clarifiquem esta questão.  

Este artigo podería terminar aquí mas no primeiro parágrafo está escrito que exemplares até agora designados A. bualanum ou A. elberti poderão um dia ter mais do que um novo nome específico. Porquê esta afirmação? Porque é elevada a probabilidade de que algumas das diversas populações até hoje agrupadas sob o nome A. bualanum venham a ser elevadas à categoria de espécie no futuro. Basta olhar de relance para as diversas fotografias que ilustram este artigo (nota - esta observação refere-se ao artigo publicado no BAPK. Poderá ver essas fotografias acedendo a este link) para ver a extraordinária diversidade de fenótipos4, inclusivamente entre os exemplares fêmeas. Repare-se, por exemplo, nas diferenças significativas da fêmea da população de Nanga Eboko. Verifica-se também que o cariótipo desta espécie é variável ao nível de população e que alguns cruzamentos entre elas produziram descendência estéril (Scheel 1968).

Até ao momento duas antigas populações de A. bualanum já foram elevadas à categoria de espécie: Aphyosemion kekemense Huber 1977 (não consensual pois é considerada por muitos apenas uma subespécie - A. bualanum kekemense Radda & Scheel 1975) e Aphyosemion dargei Amiet 1987.

Jean-Louis Amiet identificou seis fenótipos distintos e considerou que alguns estão tão bem caracterizados que poderiam ser imediatamente considerados espécies diferentes e que apenas o seu desconhecimento da distribuição geográfica exacta desses fenótipos o impediu de criar novos nomes específicos ou subespecíficos (Amiet 1987). O problema residia na incerteza da existência ou não de populações com características intermédias. Também Scheel (1968) considerou essa possibilidade altamente provável. Infelizmente Amiet abandonou os seus estudos sobre killies antes de completar esta tarefa e, estranhamente, ainda ninguém prosseguiu o trabalho por ele iniciado. Pessoalmente aguardo com grande expectativa que isso venha a suceder num futuro próximo.

1 Dados merísticos – Caracteres morfológicos que podem ser contados e geralmente uma das características a ter em conta aquando da descrição de espécies. O número de raios das barbatanas é o dado merístico mais utilizado para esse efeito.

2 Holotipo – Um único espécime preservado ao qual um certo nome zoológico foi atribuído.

3 Terra Typica, também designado por Localidade Tipo – Local de origem do Holotipo.

4 Fenótipo – A soma dos caracteres visíveis de um indivíduo e, por extensão, de uma população.

Bibliografia

Amiet, J.-L. 1987. Le Genre Aphyosemion Myers (Pisces, Teleostei, Cyprinodontiformes). Sciences Nat. 262pp.

Huber, J. H. 1998. Miscellaaneous Notes on Some Systematic Difficulties Regarding Old World Cyprinodonts. Journal of the American Killifish Association Vol. 31, nº1. 15pp

Huber, J. H. 2000 Killi-Data 2000. Société Française d’Ichtyologie. 538 pp

Lazara, K. 2001. A Taxonomic and Nomenclatural History of the Sub-genus Kathetys Huber, 1977. Background on the species in Kathetys. Journal of the American Killifish Association Vol. 34, nº 5,6.98pp

Scheel, J. J. 1968 Rivulins of the Old World. TFH Publications. 4780pp

Wildekamp, R.H. 1993 A World of Killies. Atlas of the Oviparous Cyprinodontiform Fishes of the World. Vol. I American Killifish Association 384pp

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