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Algumas notas introdutórias sobre os killies sul-americanos anuais

Artigo publicado no Boletim da Associação Portuguesa de Killifilia Vol. II, nº5 Set./Out. 2000
 

Autor: Alberto Reis

Os killies anuais sul-americanos agrupam mais de 50 espécies pertencentes a vários géneros (Aphyolebias, Austrofundulus, Austrolebias, Campellolebias, Cynolebias, Cynopoecilus,  Gnatholebias, Leptolebias, Maratecoara, Megalebias, Micromoema, Moema, Neofundulus, Papiliolebias, Pituna, Plesiolebias, Pterolebias, Rachovia,   Renova, Simpsonichtys, Spectrolebias, Stenolebias, Terranatos e Trigonectes) que habitam uma área muito significativa da América do Sul com destaques para o Brasil, a Argentina, o Paraguai, o Uruguai, o Peru, a Colômbia, a Venezuela e a Guiana. São peixes anuais à semelhança dos Nothobranchius, ou seja, o seu ciclo completo de vida apresenta uma duração muito curta. Muitos dos membros deste grupo possuem grande beleza, não em especial pelas cores que apresentam, aquém de muitos Aphyosemion e Nothobranchius, mas pela morfologia, em especial pela disposição, forma e dimensão das suas barbatanas e pelos padrões de manchas, pontos e riscas que apresentam no corpo. Este charme discreto, aliado à dificuldade com que se encontram algumas espécies, faz com que seja um grupo muito apreciado e que haja um núcleo de criadores muito fiel que os mantém com alguma devoção e admiração pelo mundo fora. Em especial, tenho mantido muito interesse por algumas espécies de rara beleza que vivem em clima muito semelhante ao de Portugal, na Argentina e no Uruguai (Géneros Austrolebias e Megalebias), graças aos esforços de vários conhecidos que por lá vivem e que têm o prazer de os pescar in situ. Estes killies de regiões temperadas têm um atractivo suplementar e especial. Além de serem mantidos durante todo o ano nas nossas casas sem aquecimento, podem ser mantidos ao ar livre em pequenos lagos ou tanques. Mais, nessas condições podem atingir maiores dimensões e cores mais vivas, além de sobreviverem durante mais tempo. É uma experiência que me proponho fazer a curto prazo…
 
Na minha opinião, as espécies mais belas são a Austrolebias nigripinnis, a Simpsonichthys magnificus e a Simpsonichthys fulminantis, com cores a nível do que é possível encontrar nos Aphyosemion e Nothobranchius mais belos. A seguir há uma lista extensa que engloba a Simpsonichthys antenori,a Simpsonichthys boitonei, a Austrolebias affinis, a Austrolebias viarius, a Simpsonichthys flammeus, a Simpsonichthys guisolphi, a Simpsonichthys hellneri,a Maratecoara lacortei, a Simpsonichthys notatus e a Simpsonichthys zonatus. Aquelas que se aconselham a principiantes são: Austrolebias bellottii, Austrolebias nigripinnis ea Simpsonichthys whitei, entre outras, pela sua robustez a toda a prova e pelo seu comportamento prolífico, principalmente exibido nesta última espécie listada. As mais difíceis parecem ser aquelas que apresentam dimensões consideráveis e muitaagressividade (ex: Megalebias wolterstorfii, Cynolebias porosus, Megalebias prognathus, Megalebias elongatus), sensibilidade a detritos e a nitritos (Megalebias cheradophilus) e longos periodos de incubação, baixa produtividade de ovos e sex-rácios muito desiquilibrados em relação aos machos (Maratecoara lacortei). De salientar que os predadores Megalebias prognathus, Megalebias elongatus e Cynolebias porosus podem atingir20 cm de comprimento e são os killies de maiores dimensões que se conhecem. Regra geral, os killies deste grupo encontram-se entre os menos susceptíveis de contrairem doenças. Estou-me a referir aos que nascem e crescem em cativeiro. Já não se pode afirmar o mesmo em relação aos selvagens que se tentam aclimatar em aquário, frequentemente flagelados por íctio, oodinium e outras doenças parasitárias.
 
Vamos à morfologia, que é pouco homogénea e difícil de generalizar. Há um marcado dimorfismo sexual. As fêmeas são menos coloridas e menos interessantes do que os machos, além de serem geralmente substancialmente menores. Um ponto em comum a muitos machos reside no espectacular desenvolvimento de algumas barbatanas nomeamente as peitorais , dorsal e anal, principalmente em muitas Simpsonichthys . Geralmente uma risca vertical escura atravessa os olhos. Riscas verticais escuras costumam percorrer lateralmente o corpo até à cauda. Muitas vezes surgem pontos brilhantes, bem contrastados, na proximidade das barbatanas. As cores mais habituais nos machos dos killies anuais sul-americanos tropicais são o vermelho, o castanho, o azul e tons intermédios. Nas Austrolebias e Megalebias (de clima temperado com uma estação fria) predominam o azul, o cinzento, o preto, o branco e os tons intermédios. Nas fêmeas, ocorre muitas vezes o padrão de manchas tipo “leopardo”.
 
Até à publicação do último Killi-Data 2000, do ictiólogo francês Jean Huber, muitos dos géneros atrás enumerados eram englobados no Género Cynolebias, cujo nome vem do grego e significa “dentes de cão” e faz justiça ao focinho robusto semelhante a um cão Bulldog ou Boxer que muitos membros apresentam. A mandíbula inferior é mais saliente do que a superior, e esse efeito é muito marcado no caso das Megalebias predadoras tais como aprognathus.
 
Vamos à manutenção em aquário. Convém distinguir duas situações: a correspondente às regiões temperadas, cujo biótopo são as zonas pantanosas temporariamente submersas situadas nas pampas na Argentina e Uruguai ea correspondente às regiões tropicais cujos killies habitam poças temporárias nas extensões com pouca vegetação que no Brasil se denominam “serrado”.
 
As Austrolebias e Megalebias toleram águas frias e mesmo uma camada de gelo à superfície, ou seja água a rondar os 0 ºC! No Verão toleram água a 30 ºC ou mais, mas ficam mais indolentes, produzem menos ovos e podem ficar mais sensíveis a algumas doenças. O pH não é muito importante, sendo nos locais de origem entre 6 e 9. A dureza total pode variar de 0 a 30. Suportam maior quantidade de detritos no aquário do que os Nothobranchius.
 
Os restantes killies anuais sul-americanos (os tropicais) preferem temperaturas mais amenas, de preferência entre 22 e 28ºC, e dão-se muito bem entre os 23 e os 26ºC. Geralmente o intervalo de pH e dureza total que se encontra nos seus biótopos de origem é mais apertada, nomeadamente entre 6 e 7.5 e entre 0 e 20 graus TH, respectivamente.
 
Os aquários onde estes peixes devem ser mantidos não costumam exigir grandes volumes. Um casal de dimensão pequena ou média consegue manter-se em 10 litros, desde que se façam mudanças periódicas de água. Os grandes (Cynolebias e Megalebias) podem requerer 50 litros ou mais. São peixes de metabolismo rápido, que podem e devem ingerir diariamente o seu próprio peso em alimento (ou mais) para se manter em perfeitas condições. Produzem, por isso mesmo, uma grande quantidade de detritos. Desde que “habituados” desde a fase de alevins, aguentam renovações totais de água (100%) cada semana. Eu faço-o sistematicamente com as Austrolebias sem quaisquer tipo de problemas. Nos anuais tropicais (por exemplo, Simpsonichthys), diluo até 70 % do volume, por semana.
A agressividade é um factor a ter em conta. Em especial, dá-se entre dois machos ou mais se coexistirem no mesmo aquário e dá-se também do macho para a(s) fêmea(s). Menos frequente é a agressividade entre fêmeas, mas também ocorre. A solução consiste em evitar colocar mais do que um macho adulto por aquário e colocar muitos refúgios (plantas aquáticas submersas, pedras, troncos) para dar protecção às fêmeas. Já tive machos de Austrolebias affinis (duraznensis) muito maltratados por machos dominantes, com barbatanas em muito mau estado e muitas feridas no corpo que, felizmente, não foram mortais.
 
A colocação de plantas tem uma função dupla, que é o da purificação biológica da água e a produção de oxigénio suplementar. Mas tem uma desvantagem. Os anuais tímidos (e há muitos exemplares de muitas espécies que assim se comportam, tal como o Simpsonichthys flammeus) mantêm-se longos periodos escondidos e não mostram o esplendor da sua beleza. As plantas que costumo utilizar são o musgo de Java, o feto de Java, a elódea e as mil-folhas (Myriophyllum).
 
A reprodução é feita no fundo, de preferência sobre turfa em pó. Há algumas diferenças em relação ao que se descreve para os Nothobranchius. Aqui, a camada de turfa deve ser superior e esta não precisa de ser fervida durante duas vezes nem de ser neutralizada com bicarbonato de sódio. A espessura mínima é uma vez e meia o comprimento do macho maior. Tudoporque o casal se enterra na turfa para aí efectuar a postura. Uma espessura menor poderia magoar o casal, por “raspagem” do fundo. Por motivos económicos, operacionais e sanitários, há todo o interesse em diminuir a quantidade do substrato de postura sem prejuízo do número de ovos a recolher. Então é cómodo utilizar um recipiente transparente com uma entrada espaçosa onde se coloca a turfa previamente fervida. Geralmente utilizo frascos de vidro para doces ou o fundo das garrafas de litro e meio para refrigerantes. Rapidamente o casal habituar-se-á a frequentar este novo “ninho de amor”. Desse modo poupa-se turfa e esta não se mistura significativamente com os detritos produzidos pelos peixes. A turfa recolhida e seca nessas condições tem maior qualidade química e microbiológica e o nº de ovos que perdem viabilidadedurante a incubação em seco é menor.
 
A recolha e secagem dos ovos não difere do que foi escrito para Nothobranchius. Os tempos de incubação a seco, à temperatura de 25 ºC, podem variar significativamente entre dois meses para muitas Austrolebias até oito meses e mais para alguns anuais tropicais do nordeste brasileiro, onde se registam longos periodos de seca, como é o exemplo da Simpsonichthys antenori e Simpsonichthys magnificus.
 
A eclosão dos ovos e a alimentação de alevins, juvenis e adultos não difere significativamente do que foi escrito para os Nothobranchius. Mais uma vez devem ser evitados jejuns prolongados. Alevins e juvenis deverão ser alimentados pelo menos duas vezes todos os dias. Os adultos pelo menos uma vez. Sob risco de comprometerem seriamente a saúde.
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